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Conhecendo a Ilha da Queimada Grande

Publicado: Sexta, 08 de Fevereiro de 2019, 17h59
Ilha no litoral paulista contém uma biodiversidade singular e é casa de grandes espécies interessantes

Arie Ilhas da Queimada Pequena e Queimada Grande (Foto: João Marcos Rosa)

Foto: João Marcos Rosa

Gabriel Schulz

O ICMBio é gestor de mais de 300 unidades de preservação ambiental no Brasil, tanto no continente quanto no marinho costeiro. A Área de Relevante Interesse Ecológico Ilhas da Queimada Pequena e Queimada Grande é uma das unidades de conservação brasileira. Dentre as duas ilhas que estão sob proteção do instituto, a Ilha da Queimada Grande é destaque por conter uma biodiversidade curiosa.

O nome popular (Ilha das Cobras) é por causa das habitantes que dominam o território da ilha, as cobras. Já o outro (Queimada Grande) adotado é devido às queimadas que os antigos pescadores (que sem conhecimento desembarcavam para descansar) faziam para afastar as cobras.

Hoje em dia, uma área restrita apenas para pesquisadores e profissionais ambientais. Em entrevista, a pesquisadora do Instituto Butantan, Karina Banci, nos fala sobre os cuidados e medidas a serem tomadas para visitar a ilha (principalmente por parte dos pesquisadores). Antes mesmo de embarcar é necessário possuir autorização SISBio, que só é concedida mediante apresentação de uma proposta que é avaliada pelo ICMBio.

Além do desembarque escorregadio no costão rochoso, a ilha possui uma alta densidade populacional de serpente, então os perigos de embarcar sem presença de especialista são maiores e com risco de acidente. Mesmo os pesquisadores e especialistas que vão na Ilha da Queimada Grande tomam os cuidados necessários. A caminhada é sempre com vestimenta adequada e atenção constante. E na hora do manejo da espécie para coletar dados, a orientação é sempre estar com equipamentos adequados (ganchos, pinções herpetológicos e tubos de contenção).

Pesquisadores manejando espécie (Foto: Acervo Arie Ilhas da Queimada Pequena e Queimada Grande)Um lugar pequeno em relação às outras unidades de conservação, mas com grande importância na manutenção do ecossistema natural da ilha, principalmente da espécie endêmica que domina o local, a jararaca ilhoa, além dos outros habitantes, como os insetos, lagartos, serpentes, aranhas, aves, dentre eles, o atobá - um animal frequente na ilha.

A jararaca ilhoa (Bothrops insularis), infelizmente está na categoria de criticamente ameaçada de extinção. Por ser isolada na ilha, a espécie endêmica se desenvolveu diferente das que estão no continente. Não tendo uma presa terrestre como pequenos mamíferos (roedores), a cobra começou a subir nas árvores atrás de aves, tornando a caça mais difícil. Assim, a adaptação do novo habitat fez com que seu veneno ficasse mais forte para abater a presa mais rápido. Além do mimetismo com a vegetação da ilha para se camuflar e o hábito diurno por causa das aves.

A respeito do veneno da jararaca ilhoa, perguntamos se há produção de medicamentos. Karina Banci nos respondeu: “O veneno da jararaca ilhoa, especificamente, não é utilizado na produção de medicamentos. Entretanto, toxinas descobertas no veneno da jararaca comum (Bothrops jararaca) são atualmente sintetizadas e utilizadas na fabricação de remédios para a pressão arterial, como o Captopril. Apesar de atualmente o veneno da jararaca ilhoa não ser utilizado na produção de nenhum medicamento, é importante ressaltar que atualmente existem diversas pesquisas voltadas à bioprospecção, de modo que eventualmente seu veneno possa ser um dia usado na indústria farmacêutica.”

Arie Ilhas da Queimada Pequena e Queimada Grande (Foto: João Marcos Rosa)
Carlos Renato, analista ambiental, diz que com o Plano Nacional de Herpetofauna Insular de 2011 e trabalhos de monitoramento atuais, chegou-se a um número ritmado de 2000 espécies, em torno de 1 jararaca a cada 300 metros. Ou seja, a população de jararaca ilhoa está estável. Significando que a quantidade de animais está se mantendo. Nem diminuindo e nem aumentando a população. Mesmo enfrentando algumas dificuldades, como a biopirataria (o que causa à retirada excessiva de animais) a espécie endêmica que é ameaçada de extinção se firma com sua permanência na natureza.

Pesquisadores e servidores periodicamente vão a ilha para um trabalho de rotina e monitoramento. A pesquisa na ilha tem como foco a manutenção da jararaca, porque não é o ambiente natural dela. Mas existem trabalhos para compreender melhor a vida natural tanto da ilha quanto da jararaca ilhoa. Como no caso do trabalho de doutorado da Karina Banci, que nos diz: tenho como objetivo investigar o uso do hábitat pela jararaca ilhoa. Deste modo, pretendemos caracterizar os microhábitats utilizados pela espécie ao longo do ano, determinar qual a área de vida utilizada pelos indivíduos, e verificar a influência dos fatores bióticos e abióticos sobre os padrões de movimentação. [...] Todas estas investigações provenientes do meu doutorado, e dos projetos paralelos, nos ajudam a compreender os requerimentos da espécie, o que está intrinsicamente associado à fisiologia da espécie, e que nos orientam na concepção de estratégias de conservação da mesma. Entender os padrões de movimentação da espécie, por exemplo, nos auxilia a compreender como funciona o fluxo gênico na espécie in situ, o que pode auxiliar nos programas de manejo e reprodução ex situ (linha na qual nosso laboratório já atua). Já uma nova estimativa populacional irá nos ajudar a verificar se as medidas de fiscalização e combate à biopirataria adotadas atualmente estão sendo efetivas.

Existe outro trabalho além do monitoramento da espécie. É a restauração da vegetação natural, um trabalho feito em parceria coma Universidade Federal do ABC. É um estudo da retirada do capim exótico que faz parte de boa parte do terreno e o reflorestamento das plantas que são naturais da ilha.

O ICMBio e outras instituições, como o Instituto Butantan e universidades federais, trabalham na pequena área trazendo resultados para do crescimento da conservação no Brasil. A ilha é de difícil acesso e com restrição para embarcar, mas periodicamente pessoas se expõem aos riscos do lugar e mantêm o cuidado, que vai além dos estudos científicos. Do menor espaço, o instituto trabalha para acrescentar um grande volume na conservação da natureza, com a permanência e manutenção das espécies habitantes da ilha.

Comunicação ICMBio
(61) 2028-9280
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