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Evento promove troca de saberes no Acre

Publicado: Sexta, 08 de Março de 2019, 15h22
Pesquisadores e comunitários da Reserva Extrativista (Resex) do Cazumbá-Iracema debateram a interpretação de dados coletados nos últimos 4 anos com o monitoramento participativo.

Monitores coletam dados de uma castanheira na Resex do Cazumbá Iracema
São 6 horas da manhã, o sol mal apareceu no horizonte quando moradores da Resex, localizada no estado do Acre, saem para coletar castanhas. Produtos que são coletados de formas sustentáveis e que chegam até as prateleiras das cidades do entorno da reserva e até mesmo em outros estados do Brasil. É um trabalho árduo, mas muito importante para a renda da comunidade.

Desde 2013 há um trabalho que vem mudando a rotina dos moradores da Resex: monitorar a biodiversidade local. São extrativistas que coletam dados sobre a flora e fauna da unidade de conservação para gerar informações que serão utilizadas como base para tomadas de decisões e para acompanhar a efetividade da gestão local.

A Resex é uma das unidades de conservação federais pioneiras no Projeto de Monitoramento Participativo da Biodiversidade (MPB), que foi implementado com o apoio do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, e faz parte de um programa maior do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade Brasileira – Programa Monitora. O MPB é apoiado por Gordon and Betty Moore Foundation, USAID e Programa ARPA.

Encontro dos saberes
Para discutir sobre o que o monitoramento levantou de informações nos últimos quatro anos, a Resex recebeu no sábado (16) o evento chamado Encontro dos Saberes, que contou com mais de 120 pessoas, entre monitores, membros da comunidade e representantes de várias instituições, como ICMBio, IPÊ, Embrapa, WWF e Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Sena Madureira.

O evento é mais uma etapa da Construção Coletiva de Aprendizados e Conhecimentos (CCAC), uma iniciativa que busca ampliar a participação cidadã após a fase de coleta de dados. Por meio do Monitora são realizados seminários, encontros, capacitações e oficinas de trabalho para discutir a implementação do monitoramento participativo, traçando diretrizes e trocando experiências.

A ideia do evento era criar pontes de diálogo onde diferentes saberes estejam juntos, uma troca entre o saber tradicional, empírico, jurídico, administrativo e o saber acadêmico. “Criamos espaços onde os diferentes entendimentos, inclusive contraditórios, estejam juntos para a gente olhar para a biodiversidade e ver como floresta está sendo impactada direta e indiretamente tanto na sua dinâmica local quanto no seu entorno pelas atividades agroextrativistas da Resex, por isso convidamos gente de vários lugares para o evento”, diz Leonardo Rodrigues, consultor do IPÊ responsável pela iniciativa.

Com um clima bem descontraído, dinâmicas em grupo e facilitação gráfica, o evento mostrou de uma maneira leve e intuitiva o funcionamento do programa para quem não estava familiarizado com o tema e foi uma oportunidade para pesquisadores responderem dúvidas da comunidade sobre detalhes dos protocolos. A presença dos monitores nas apresentações era fundamental para levar a confiança do programa para os moradores da comunidade.

Para a Coordenadora Geral de Pesquisa e Monitoramento do ICMBio, Kátia Torres, em muitos protocolos de pesquisa dificilmente as informações chegam aos locais onde ocorre de fato a gestão, então com um tipo de protocolo mais participativo, você gera mais entrosamento entre os moradores e pesquisadores, para pensar sobre problemas que afetam a Resex cotidianamente. “Ao trazer o monitoramento participativo para o Programa Monitora, com o apoio de outras instituições, estamos sistematizando boas práticas, para que esses resultados positivos realmente apareçam”, completa Kátia. Com o MPB e o Programa Monitora, serão levantados dados padronizados que servirão para comparar situações e interpretações de problemas de âmbito local, regional e nacional.
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O monitoramento
Na Resex, é realizado o protocolo florestal básico, onde são coletados dados de borboletas, aves, mamíferos e plantas lenhosas. Algumas vezes por ano os monitores vão a campo desenvolver o monitoramento e os dados são registrados em cadernos e pranchetas. Todo o trabalho de coleta só é possível com a dedicação das comunidades da Resex.

Cristina Tófoli, coordenadora de projetos do IPÊ, explica que além do protocolo florestal básico, existe o protocolo complementar na Resex, que é um monitoramento que busca responder uma pergunta feita localmente, em conjunto com os moradores. “Aqui em Cazumbá, quiseram fazer o monitoramento da castanha porque perceberam que está ocorrendo uma queda na produção de frutos, então para entender o que está levando a queda dessa produção, foi pensado o protocolo complementar para as castanhas” conclui Cristina.

Monitorar o meio ambiente exige conhecimento, mas o monitoramento participativo, acima de tudo, exige pessoas comprometidas em cuidar da natureza. Com um tom emocionado, Antônio José explica que cuidar da natureza era um sonho de criança, mas por não ter a oportunidade de estudar, não podia trabalhar como servidor do ICMBio. “Quando surgiu o monitoramento participativo, encaixou com aquilo que eu tinha como sonho de criança, e foi uma coisa que deu muito certo porque eu faço o que eu gosto. Eu tenho amor pela natureza porque eu considero ela como uma mãe” comenta Antônio, um dos primeiros monitores do MPB e morador da Resex.

Com o convite feito em 2014, alguns monitores acharam que não dariam conta do trabalho, mas as capacitações possibilitaram que os envolvidos no projeto levassem conhecimento e explicações para a própria comunidade, para que fossem aliados ao trabalho de monitoramento. Hoje em dia Antônio faz apresentações sobre o projeto na escola da comunidade, dividindo o que aprendeu nas oficinas e encontros.
Monitorexplica como são as trilhas de m da biodiversidade
Resultados
Depois de quatro anos de dados obtidos no monitoramento participativo, o encontro dos saberes levou importantes resultados para a Resex. As espécies e o número de animais avistados nas trilhas de monitoramento surpreenderam alguns moradores, pois animais que acreditavam existir espécies, como alguns macacos, acabaram não aparecendo nos resultados. A presença de determinadas espécies de borboletas também coincidiu com o desaparecimento de tabocais da região, evento que ainda levanta muitas dúvidas e carece de dados.

O monitoramento dos recursos, daquilo que é usado na Resex, apoia a cadeia econômica de várias formas.
Os dados obtidos permitem entender qual a relação entre a flutuação de um recurso e o uso do solo em determinada região. Isso impacta na capacidade de negociar o valor desse recurso, ao mesmo tempo permite que as pessoas negociem também o acesso ao recurso, como quanto podem usar e quanto é para cada um. Um exemplo é a castanha, que teve uma forte queda de produção em 2017 e que elevou consideravelmente o custo final do produto.

“O castanhal estava envelhecendo e não sabíamos o porquê” explica Francisco Carvalho, monitor e morador da Resex. Com a implementação do protocolo complementar, os dados puderam mostrar quais castanhais tinham maior produção de frutos por área, a idade das árvores de cada castanhal e também mostrar se fatores como tamanho da copa da árvore, quantidade de resina e a presença de cupim e cipó afetam a quantidade de castanhas coletadas por árvore.

Outra novidade que o MPB trouxe para a Resex, foi a identificação de indivíduos jovens de castanheiras, que mesmo com todo o conhecimento que os extrativistas tinham, ainda cortavam os jovens sem conseguir identificá-los. Hoje, com a ajuda de pesquisadores eles passaram a cuidar melhor dessas árvores jovens com o intuito de garantir que haja novas castanheiras para a próxima geração.

O monitoramento é como um filme, diz Leonardo, mas que começou a pouco tempo, com apenas quatro fotografias. Muitas perguntas e respostas surgirão quando ele estiver em um estágio mais avançado. A tendência, a médio e longo prazo, é atuar mais próximo de outras instituições públicas e privadas, associações e comunidades para buscar mais aliados para a conservação da Biodiversidade.

*Textos e fotos de Bruno Bimbato, que viajou a convite do IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas).

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